O interior de mim.

Eu moro em São Paulo faz alguns anos e eu sempre me perguntei o porquê chamar as cidades pequenas que ficam fora da área da capital de interior.

Após anos de grande dúvida e muita terapia, eu comecei a entender que a capital que eu morava me deixava louca, não me dava espaço, tempo e amor. Sessões nas quais eu passava uma hora e meia falando e tagarelando o porquê eu ainda estar ali e morar naquele lugar que me deixava insanamente pirada, que não me agradava quando eu sentava para refletir o rumo de que minha vida estava tomando e quando voltava pra casa pensando no quanto eu cresci ali, o quanto aquilo me fazia feliz e, ao mesmo tempo, vazia.

Decidi ir para o interior. Tomar outros ares, rumos, não sei. Mas fui.

Assim que eu desci do ônibus uma senhora muito gentil sorriu pra mim e perguntou se eu estava bem – pois estava calor e eu estava muito pálida – e eu respondi, ainda meio ríspida e com traços de paulistana que eu estava ótima e não precisava de ajuda. Peguei minha mala no bagageiro e saí arrastando ela rua afora, até que um moço que estava no mesmo ônibus que eu se ofereceu para me dar uma carona de táxi. Olhei julgando-o e disse que não. Ignorei as outras tentativas dele ser simpático. Ele foi me acompanhando durante um quarteirão falando que a minha mala estava pesada e estava quase 40 graus. Parei para comprar uma água, ganhei um bom dia do moço da padaria. Quase pedi pra ele calar a boca. Quem, em sã consciência, tem uma dia bom num dia de calor? Peguei a água e deixei cair uma outra no chão. O mocinho do caixa foi muito solícito ao sair detrás do balcão e se oferecer para pegar. Respondi: “eu tenho mãos” – saiu mais rápido do que pude pensar (desculpa, moço!). Me refresquei e continuei a caminhada.

Cheguei na casinha onde ficaria. Abri minha mala e coloquei um biquini. “Legal, nada pra fazer”. Tomei sol, fui na piscina e fiquei lá até escurecer. “Legal, nada pra fazer”. Tomei meu banho, fui ver um pouco de TV. Dois canais que prestavam. “Legal, nada… pra… fazer”. Fui dormir cedo aquela noite. Fiquei rodando na cama e sendo obrigada a pensar. Era a primeira noite em anos que eu não caía de cara nos lençóis e apagava. “O que eu estou vivendo? Que tipo de vida estou levando? O que foi aquilo na padaria”. Eu desaprendi a ser eu. A ser gentil, solícita e a ter respeito. Desaprendi a sorrir para um estranho na rua e, no lugar disso, aprendi a ter um medo constante de ser assaltada. Aprendi a dar respostas curtas e malcriadas.

Passei dias enrolada naqueles lençóis pensando. Refletindo. Indo pro meu interior. Interior. Algo clicou na mente. Era dali que tinha vindo aquela expressão. Eu tive que viajar para chegar ao meu interior. Eu fui pro meu interior.

ASS

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2 comentários

  1. Poxa, Rafaela!!!!! Você escreve muito bem!!!! E não é corujisse de vó não! Beijões de novo!!!!

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