Pai e mãe fica dentro da gente.

São dez da noite. Dez e uns quebrados, talvez dois quebrados e meio. Coloquei um cover calmo de uma música famosa na qual eu nunca nem arrisquei a escutar a original para não quebrar a magia. Desembaracei meu cabelo emaranhado de um banho gelado, coloquei um pijama larguinho que não me desse muito trabalho. E parei aqui.

Um misto de adrenalina, cansaço e certeza invade meu corpo. Invade-me na sua forma mais súbita e dominadora, sem nenhuma condição possível de dominação. É uma sensação fabulosa aos olhares mais céticos, então respirem fundo e tentem entender. É uma sensação que não dá para se olhar sentindo, tem que escutar com o coração.

Feche os olhos, levemente. A primeira que chega sem avisar é uma paz indescritível, silenciosa e silenciadora. Ela percorre o corpo, fio a fio, cheiro a cheiro, órgão por órgão. Ela funciona como um scanner e, no final, ela já sabe tudo o que sentimos e os maiores medos que temos. Logo em seguida, o coração palpita um pouco mais forte. Ele dá sinal de vida ao corpo, pra mostrar que cumpre seu papel. Ele se vê orgulhoso de quem o corpo se tornou, como se fosse um pai que olha pelo filho. Depois a mãe cérebro sorri – tão orgulhosa como o resto de você, de mim. Ela lembra de acontecimentos pequenos que deixaram uma marca do tamanho de um sistema intergaláctico inteiro. Ela percorre essas cicatrizes e as vê como troféus de sobrevivência, de amor e de carinho. Chegamos até aqui. Eu e você.

Dez da noite. Dez e três quebrados e eu me sinto completa – completa de exaustão, de amor e de paz. Apesar do mundo ser um lugar malvado, complexo, difícil e atormentador, ele também é brisa leve que se sente quando paramos para fechar os olhos.

Dez e quatro quebrados e eu estou, pela primeira vez na vida, orgulhosa de quem eu me tornei. Eu não leio esse sentimento como autopromoção ou algo que me deixe estacionar, mas sim como algo maduro. Eu me vi, me vejo e me verei como objeto de constante melhora e mudança, como objeto de autocríticas severas, mas sempre com orgulho por ser quem eu sou, por ser quem eu me quis ser.

Dez e cinco quebrados e eu só tenho a agradecer a cada momento que me possibilitou fechar os olhos e, levemente, ver como pai e mãe – orgulhosos.

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OBS: leia de novo escutando qualquer música dessa playlist.

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